quinta-feira, 6 de agosto de 2015

FOLHA: CUNHA 'ENLAMEIA' AS CPIS E O IMPEACHMENT

Em mais um duro editorial contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o jornal da família Frias o acusa de colocar o Legislativo "a serviço de inconfessáveis objetivos pessoais"; numa crítica que atinge também o PSDB, a Folha diz ainda ser "espantoso que tantos no Congresso Nacional se disponham a secundá-lo".

No "Brasil247"
Da Redação


Em mais um duro editorial contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o jornal da família Frias o acusa de colocar o Legislativo "a serviço de inconfessáveis objetivos pessoais". 

Numa crítica que atinge também o PSDB, a Folha diz ainda ser "espantoso que tantos no Congresso Nacional se disponham a secundá-lo". Leia abaixo: 

Desconcerto 

Bastou um dia de sessão na Câmara dos Deputados para ficar evidente que o recesso parlamentar não arrefeceu o confronto entre Legislativo e Executivo. Pior, o conflito parece enveredar pela via arriscada do descontrole político e da chantagem desabrida. 

Nem mesmo as decisões concertadas entre líderes partidários se mostram capazes de pôr a Câmara nos trilhos do interesse nacional. 

Após intensas conversas, decidiu-se retirar da agenda o item da chamada pauta-bomba que equipararia vencimentos na Advocacia-Geral da União e na Polícia Federal aos vigentes no Judiciário. A trégua duraria três semanas, mas, em questão de horas, o plenário derrubou o acordo dos líderes. 

Há duas hipóteses para explicar a confusa reviravolta; nenhuma é animadora. A primeira: falta de controle dos próceres sobre as suas bancadas. A segunda: que outra liderança –mais forte, mais influente e mais avessa aos trâmites democráticos– esteja em ação. 

Todas as evidências apontam para o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Acossado pela acusação de recebimento de propina, o presidente da Câmara multiplica confirmações de sua prontidão para pôr a Casa a serviço de inconfessáveis objetivos pessoais.

Como um trator desgovernado, a bancada fiel a Cunha atropela e aleija não só o esforço para equilibrar as contas do governo federal neste momento de crise econômica. Também enlameia dois institutos valiosos para corrigir desvios nos rumos do país, a saber, as comissões parlamentares de inquérito e o mecanismo do impeachment. 

As CPIs são esgrimidas pela Câmara como vergonhoso instrumento de pressão. Há boas razões para investigar o BNDES e os fundos de pensão associados ao governo petista, mas não são elas que movem a abertura das comissões e a exclusão do PT de sua direção. 

O objetivo dos parlamentares é acuar uma presidente fraca e impopular. Para tanto, a Câmara de Cunha –com o apoio até do outrora comedido PSDB– não hesita em brandir a ameaça do impedimento de Dilma Rousseff (PT). 

O impeachment é um recurso extremado da democracia para as raras situações em que se torna necessário ejetar um governante legitimamente eleito. Requer sólida comprovação jurídica de crime de responsabilidade, antes de mais nada, e depois o consenso político de que o mandatário perdeu toda a condição de governar. 

Nenhum desses pré-requisitos está dado. Ao manobrar nos bastidores para que seus colegas mantenham viva a chantagem e camuflem suas impressões digitais, Eduardo Cunha dá mostras de que não mede as consequências de seus atos e maquinações para a República –e é espantoso que tantos no Congresso Nacional se disponham a secundá-lo.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Brasil: potência orgânica?

Quando pensamos nos benefícios do alimento orgânico logo nos vem à cabeça os aspectos relacionados à saúde humana, pelo simples fato de evitarmos o consumo de agrotóxicos. No entanto, as virtudes vão além, sendo a produção orgânica aliada direta da própria conservação da natureza.

No "Envolverde"
Via "SOS Mata Atlântica"
Por Marcia Hirota e Marcos Palmeira*

Alimentos orgânicos são produzidos por meio de técnicas específicas, buscando otimizar recursos naturais e socioeconômicos, objetivar a sustentabilidade econômica e ecológica e minimizar o uso de energias não-renováveis, sem empregar materiais sintéticos, organismos modificados geneticamente ou radiações ionizantes. O objetivo final dos orgânicos é a saúde da população, mas também a manutenção do equilíbrio do planeta, já que essa é uma técnica que preserva nossos solos, águas e biodiversidade. 

Outro benefício está no próprio processo de certificação dessa produção. Para ser certificado, o proprietário de terra necessita, antes de mais nada, seguir a legislação ambiental, o que inclui, por exemplo, ter a Reserva Legal e proteger as Áreas de Proteção Ambiental (APPs). Pode parecer absurdo listarmos esse item como vantagem, mas sabemos que a realidade do agronegócio ainda está longe do cumprimento da lei. Inclusive, este é um dos motivos que encarece o produto orgânico e limita muitos pequenos proprietários de terra a investirem nesse tipo de produção. 

Soluções e opções existem. Em Sorocaba, no interior de São Paulo, um coletivo da sociedade civil, com o apoio da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e parceria da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), criou o Grupo de Articulação Regional da Feira de Orgânicos de Sorocaba (Garfos) para a realização de uma feira de “transição agroecológica”, justamente para incentivar a produção de orgânicos de Piedade, município vizinho. Muitos produtores em Piedade, que é um dos principais abastecedores da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (CEAGESP), começavam a trocar os insumos químicos pela agricultura orgânica, mas sem os recursos para realizar a certificação. Com a feira, que acontece em um parque de Sorocaba todos os sábados, esses proprietários encontraram um local para comercializar diretamente sua produção e, assim, levantar os recursos para se certificarem. Para completar, a iniciativa trabalha ainda em todas as etapas, desde o apoio ao produtor convencional que quer realizar a transição, o suporte ao pequeno produtor que encontra resistência para a mudança, a valorização da agricultura familiar e o estímulo ao consumo de produtos saudáveis. 

Tal experiência aponta também o importante papel do consumidor como incentivador da produção orgânica. Não que a responsabilidade seja apenas de quem consome, mas gerar demanda é sim uma saída bastante eficiente para se estimular novas relações de produção, consumo e modelos de negócio. Um exemplo bastante inovador, e inspirador, é o Instituo Chão, recentemente inaugurado no bairro da Vila Madalena, em São Paulo, definido pelos fundadores como “um espaço de convivência e economia social para experimentação de novas formas de relação”. 

Na feira da associação sem fins lucrativos, que funciona de terça a domingo, os alimentos orgânicos são vendidos pelo preço do produtor, sem margem de lucro. Além do hortifruti, há ainda um café e mercearia. O preço chama atenção e já tem gerado procura, mas o mais interessante é a experiência socioeconômica e solidária, que elimina do preço final os custos operacionais do ponto de venda e convida os frequentadores-consumidores a colaborarem espontaneamente com doações para cobrir tais despesas, expostas com transparência num quadro negro. Vale a visita! 

Agora, já que são tantos os benefícios da produção orgânica, porque o Brasil investe tão pouco nessa modalidade e continua a bater recordes no consumo de defensivos agrícolas? O motivo está no nosso modelo de agricultura pautada na monocultura e na produção de commodities. Esta é uma base importante para a balança comercial brasileira, tanto que durante a última década o país cresceu amparado na comercialização de alguns produtos primários, como a soja, o milho e o algodão. Mas é também um modelo econômico bastante questionável e que começa a dar sinais de enfraquecimento, com o recuo da cotação desses produtos no mercado internacional. 

Quando se planta e produz numa escala grandiosa e com uma diversidade baixa, ainda por cima em áreas sem a presença adequada de florestas, naturalmente ocorrerá o empobrecimento do solo, o descontrole natural de pragas, a diminuição da população de polinizadores, como as abelhas, a desproteção dos recursos hídricos e mais uma série de fatores que constituem o cenário ideal para que o Brasil se mantenha na liderança do consumo mundial de defensivos agrícolas. Sem contar que estamos falando em commodities, não em alimentos para a população. 

O uso desses produtos é tamanho que o país já ultrapassou, em 2009, a marca de 1 milhão de toneladas de defensivos por ano, de acordo com o estudo “Agrotóxicos no Brasil: um guia para ação em defesa da vida”, de 2011. Segundo a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), nos últimos 40 anos o uso de defensivos agrícolas subiu 700%, frente ao aumento de 78% da área plantada no Brasil. Números que não devem ser comemorados e evidenciam o excesso de agrotóxico aplicado em nossas plantações. 

Em abril deste ano, o Instituto Nacional do Câncer (Inca), órgão ligado ao Ministério da Saúde, divulgou nota de posicionamento em que pede a redução da utilização de agrotóxicos no país, alegando que as atuais práticas de uso de produtos químicos sintéticos na produção de alimentos oferecem risco à saúde, tanto das populações que estão expostas aos defensivos nas regiões de produção agrícola, como também de quem consome o produto final, em casa. Para se ter uma ideia do imbróglio, dos 50 produtos mais utilizados na agricultura brasileira, 22 são proibidos na União Europeia. 

Além dos problemas para a saúde, os agrotóxicos representam uma grave ameaça para o meio ambiente, principalmente para os recursos hídricos. A utilização dos defensivos agrícolas é a segunda maior causa de contaminação dos rios, ficando atrás apenas do esgoto doméstico. Por estas e outras é que a produção sustentável, como o cultivo orgânico, continua sendo um grande desafio para o setor agrícola. 

A sociedade precisa se organizar e pressionar o governo para que reveja sua política de incentivo à produção de agrotóxicos, evite a liberação de substâncias que já são proibidas em outros países e invista na redução progressiva desses produtos. Afinal, ainda sonhamos que um dia viveremos num mundo sustentável, em que a agroecologia se multiplique e o Brasil se torne o maior celeiro de produtos orgânicos do mundo. É possível alimentar a humanidade com alimentos orgânicos! 

* Marcia Hirota é diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica e Marcos Palmeira é ator e produtor orgânico.

Em que país do mundo você acha que um policial algemou duas crianças na escola?

Imagens mostram um policial algemando um menino de apenas oito anos – que sofre de hiperatividade e déficit de atenção – em uma escola nos Estados Unidos e há denúncias apontando que ele pode ter feito o mesmo com uma menina de 9 anos. Confira o vídeo

No "Portal Fórum"
Da Redação


Mais um episódio de abuso e violência da polícia norte-americana veio à tona com um vídeo divulgado nesta terça-feira (5). Os alvo de agora, no entanto, não foram jovens negros, como nos últimos casos que ficaram famosos, mas duas crianças dentro de uma escola: uma de 8 e outra de 9 anos. 

De acordo com American Civil Liberties Union – entidade que divulgou o vídeo – o caso aconteceu no ano passado em uma escola no estado de Kentucky. Pelas imagens gravadas por uma pessoa escondida, é possível ver o policial que cuidava da escola mantendo um menino de apenas 8 anos algemado. Segundo a entidade, o garoto sofre de hiperatividade e déficit de atenção e o agente teria o algemado por conta do seu “comportamento inadequado”.

“Se você se comportar eu tiro”, diz o policial enquanto o menino chora e diz que as algemas o machucam. As mãos da criança eram tão pequenas que as algemas, inclusive, foram colocadas na parte de cima do seu braço. Além dos maus-tratos, há denúncias de que o policial tenha feito o mesmo com uma menina de 9 anos da mesma escola. 

Nesta segunda-feira (4), Kevin Sumne – como foi identificado o policial – participou de uma audiência em que está sendo processado por ter provocado trauma e dor aos alunos. De acordo com a mãe do garoto, ele ainda chora, tem pesadelos e sente os traumas por conta da ação.

Mais de 50% do semiárido brasileiro está em processo acentuado de desertificação, diz engenheiro florestal

Segundo Iêdo Bezerra de Sá, pesquisador da Embrapa, cerca de 10 a 15% do semiárido enfrenta 'desertificação severa'; desmatamento da caatinga, que tem pouca visibilidade nacional e internacional, é principal fator neste processo.

Na "Revista Samuel"
Via "Instituto Humanitas Unisinos"
Por Patrícia Fachin e Leslie Chaves
Petrolina - Pernambuco

Irregularidade das chuvas contribui para que a degradação seja ainda mais acentuada em algumas regiões, diz o pesquisador
Mais de 50% das áreas do semiárido brasileiro já “estão com processo de desertificação acentuado”, e cerca de 10 a 15% do território enfrenta uma situação de desertificação severa. A soma das extensões de terras degradadas no Ceará, na Bahia e em Pernambuco equivale a “63 mil km²” de desertificação, informa Iêdo Bezerra de Sá, engenheiro florestal e pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).

Ele explica que a desertificação é um fenômeno de degradação ambiental que acontece particularmente em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, a exemplo do Nordeste e de parte do Sudeste brasileiro.

De acordo com o engenheiro florestal, no Brasil a desertificação no semiárido tem se agravado por causa do desmatamento na caatinga. “Ao desmatar a caatinga, os solos ficam completamente expostos a todas as intempéries”, frisa. Além do desmatamento, Bezerra de Sá enfatiza que a irregularidade das chuvas contribui para que a degradação seja ainda mais acentuada em algumas regiões. “Há locais, por exemplo, aqui onde estou agora, em Petrolina — que é no extremo oeste de Pernambuco —, em que chove 450 a 500 milímetros por ano. O grande problema é essa irregularidade das chuvas: elas caem de forma muito concentrada, chove muito em pouco tempo, ou seja, os 500 milímetros se concentram em apenas dois, três meses e, às vezes, 20%, 30% da chuva do ano cai em apenas um dia”.

Ele informa ainda que o maior polo de produção de gesso do país, localizado em Araripe, no Ceará, responsável pela produção de 95% de todo o gesso produzido no país, utiliza energia de biomassa, mas aproximadamente “50% dessa energia é oriunda de desmatamentos ilegais e clandestinos. O governo sabe disso, as autoridades sabem disso e estamos com um trabalho muito importante de conscientização dessas empresas que utilizam biomassa na sua matriz energética”.

Entre as soluções para tentar reduzir a desertificação, o pesquisador chama atenção para a necessidade de investir em planos de manejo florestal sustentável para a caatinga, de modo a utilizar o bioma de “forma contínua e sustentável” e recuperar as áreas degradadas, que levam de 30 a 40 anos para serem regeneradas.

Confira a seguir trechos da entrevista.

O senhor tem chamado atenção para o fato de que a desertificação é avançada em mais de 20 núcleos do Semiárido. Em que consiste esse fenômeno?

Iêdo Bezerra de Sá: Desertificação é um termo utilizado pela UNCCD, que é a sigla em Inglês de Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos das Secas, que trata da degradação ambiental em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas. Então, podemos utilizar o termo desertificação somente em regiões que têm essa climatologia. No Brasil essa situação se encontra no Nordeste e em parte do Sudeste, ou seja, no Norte de Minas Gerais. Isso significa dizer que só podemos utilizar o termo “desertificação” para nos referirmos a essas regiões. Por exemplo, não se pode utilizar o termo para tratar de um problema sério que há no Rio Grande do Sul, ou para indicar a situação de uma área muito grande em Roraima ou em Rondônia, porque elas não estão nessa situação climática de aridez ou de semiaridez. No caso do Brasil, no semiárido encontra-se uma área de aproximadamente um milhão de quilômetros quadrados, o equivalente a duas vezes o tamanho de Espanha e Portugal juntos. Quando falamos isso na Europa, as pessoas reagem de forma apreensiva por se tratar de uma área muito grande. Agora, desertificação não é um termo binário, branco ou preto, porque existe uma gradação.

Na Embrapa fazemos um mapeamento que demonstra uma gradação que vai de uma desertificação muito baixa até uma degradação moderada, acentuada ou severa, porque há lugares que são muito preocupantes, que têm uma severidade do processo muito forte, enquanto em outros lugares a degradação é mais branda. O que temos de fazer é tentar frear os vetores de crescimento dessas áreas, e para isso desenvolvemos algumas tecnologias que são transferidas para as regiões que percorremos.

No Brasil, este processo começou justamente por conta da retirada da cobertura vegetal florestal; em outras palavras, por causa do desmatamento. O desmatamento da caatinga gerou todo esse processo, porque ao desmatar a caatinga os solos ficam expostos a todas as intempéries: há uma insolação muito forte, de mais de duas mil horas/ano de sol, e um regime de chuvas muito complicado, porque não é a questão de quantidade de chuvas, mas sim a sua irregularidade na distribuição.

Há locais, por exemplo, aqui onde estou agora, em Petrolina — que é no extremo oeste de Pernambuco —, em que chove 450 a 500 milímetros por ano. Essa quantidade foi verificada em uma série histórica de mais de 30 anos de acompanhamento dos regimes de chuvas. O grande problema é essa irregularidade das chuvas: elas caem de forma muito concentrada, chove muito em pouco tempo, ou seja, os 500 milímetros se concentram em apenas dois, três meses e, às vezes, 20%, 30% da chuva do ano cai em apenas um dia. Isso gera um fator de degradação muito forte. Aliado a isso, não só no semiárido do Brasil, mas no semiárido do mundo inteiro, os solos de fertilidade natural são baixos. Não é que não existam solos bons no semiárido, ao contrário, mas o que predomina aqui na região são solos de baixa fertilidade natural, são solos rasos, são aqueles com pouca profundidade. Ou seja, quando se começa a cavar, logo se chega à rocha que formou esse solo, e esse também é um fator muito severo da desertificação.

Quando associamos essa climatologia à questão de solos, que são condições naturais, e acrescentamos o fator humano imposto a este ambiente, aí se exacerbam e se aceleram estes processos de desertificação. Esse é o contexto em que vivemos hoje no semiárido. Estamos tentando reverter toda a parte que é induzida pelo homem, porque não temos muita governabilidade sobre a natureza.

Esses 20 núcleos que enfrentam essa situação de desertificação correspondem a que percentual do semiárido?

Mais de 50% das áreas do semiárido brasileiro já estão com processo de desertificação acentuado e aproximadamente 16 mil hectares da caatinga já foram desmatados. Além disso, alguns núcleos no Ceará, na Bahia e em Pernambuco estão com as áreas bastante comprometidas. Somando a área desses municípios, o desmatamento está em torno de 63 mil km². O semiárido todo tem um milhão de km², então cerca de 10% a 15% dessa área está numa situação de severidade muito grande. E, se formos completar isso com a parte que fica um pouco mais acentuada e moderada, o percentual ultrapassa os 50% do semiárido.

Temos ainda situações muito degradantes na região Sul do Piauí, região de Gilbués, e em Pernambuco tem um cenário muito ruim na região de Cabrobó e Salgueiro. Também tem uma área grande, entre a Paraíba e o Rio Grande do Norte, onde há um conjunto de municípios — doze ou dez — em condições precárias. Então, quando falamos em 20 núcleos, é apenas uma questão didática, porque na realidade a área se estende a uma extensão muito maior do que isso. Como vimos, é mais de 50% de uma região bastante comprometida.

Estamos fazendo alguns estudos para verificar essa situação estado por estado, a fim de ver a situação de cada um deles. Estamos concluindo um trabalho em Pernambuco, que será publicado até outubro deste ano. Pernambuco tem 185 municípios, dos quais 122 estão em situações que têm problemas de desertificação. Estamos ranqueando esses dados e verificamos que alguns municípios têm praticamente toda a sua área com um processo bastante acentuado ou severo de desertificação. Então, frear essa degradação é a grande dificuldade, porque custa muito capital humano e também financeiro, e leva tempo para fazer.

Além disso, as propriedades familiares maiores passam a ser subdivididas, então a pessoa tem três, quatro, cinco, seis filhos e depois essa área é desmembrada e passa para os filhos. Isso também é um fator de degradação, porque as pessoas tendem a tirar sua sobrevivência da base de recursos naturais de sua propriedade. Assim, a primeira coisa que fazem é desmatar uma área para plantar e esse plantio vem sendo feito de forma desordenada, sem tecnologia, sem insumos agropecuários adequados, em ambientes também inadequados, e esses fatores geram um processo de retração muito intenso.

Frear isso é um pouco mais complicado, porque se trata de uma questão social, por isso a Embrapa tem uma unidade encravada no coração do semiárido, na cidade de Petrolina, para tentar desenvolver algumas tecnologias que possam minimizar — sabemos que erradicar é praticamente impossível — esse manejo equivocado que se faz do recurso natural. Um grande problema nosso é a questão do desmatamento seguido de queimada, porque o agricultor do semiárido é descapitalizado: ele não tem acesso à tecnologia nem a crédito. Por isso, eles utilizam o meio que podem, ou seja, desmatam e queimam áreas, e queimar área é um crime ambiental e é dar um tiro no próprio pé, porque o semiárido de um modo geral é pobre, o solo é pobre em matéria orgânica. E se está sendo queimado o pouco de matéria orgânica que já existe, isso realmente é muito ruim. Queimam para limpar o terreno, na ilusão de que a produtividade será melhor em função da queima, mas esse é um erro e estamos sempre tentando corrigi-lo.

A matéria orgânica do solo é o que mais comporta a retenção de água. Assim, um dos grandes problemas do semiárido é a questão da água. Se, em um solo que recebe pouca água, parte da vegetação é queimada, o solo fica ainda mais empobrecido de matéria orgânica e, por conseguinte, retém mais água. Esse tipo de informação, que está um pouco defasada no Brasil, tem de chegar ao produtor rural, porque às vezes ele age de forma errada por ignorância, ou às vezes porque não tem outra forma de fazer, e às vezes até por má-fé.

Qual a causa de a desertificação ser mais intensa nesses 20 núcleos do semiárido e quais são eles? Como se chegou a essa situação?

Nós chegamos a essa situação em função da primeira causa, que é o desmatamento, ou seja, a retirada da cobertura, principalmente da cobertura florestal, porque é ela quem protege o substrato do solo de todas as intempéries. Além disso, o sobrepasteio dessa vegetação contribui para esse fenômeno. Depois, há o problema do manejo que é dado a esse solo, com plantações inadequadas, sem fazer o terraceamento, sem conter a erosão. Quando a cobertura é retirada e as chuvas são de alta intensidade, embora poucas ao longo do ano, acontece um processo de carreamento do solo. Isso provoca um tipo de erosão laminar, que degrada bastante essas áreas, porque vai retirando lâminas do solo: a cada ano vai um milímetro, por exemplo, e as pessoas não percebem isso, mas no passar de 10 anos houve a perda de 10 milímetros, o que equivale a um centímetro do solo.

Para o engenheiro florestal, desertificação é como "um jogo de dominó, em que uma causa empurra a outra e, na ponta, quem mais se prejudica é a pessoa que vive no semiárido"
É necessário manter o máximo possível da vegetação, proteger esse solo, plantar corretamente nos lugares certos, com a cultura certa e com o manejo certo. Isso é fundamental para que se evite esse processo de desertificação, não só aqui, mas em qualquer região que tenha essa climatologia e também esse tipo de solo.

De que maneira a desertificação acaba impactando na vida das pessoas que vivem no semiárido?

Considero a desertificação como um jogo de dominó, em que uma causa empurra a outra e, na ponta, quem mais se prejudica é a pessoa que vive no semiárido. Em um passado não muito longínquo, existia o êxodo do nordestino que saía da sua terra para ir para o Sudeste, o Centro-Oeste e às vezes até para o Sul, ou então para as capitais, em busca de emprego, renda e de manter a sua vida, porque a terra dele ficou de um jeito tão improdutivo que não conseguiu mais rendimentos para sustentar a família. Esse processo vem diminuindo gradativamente de uns 50 anos para cá, mas ainda acontece. No entanto, o êxodo agora não é mais para o Sudeste, para o Sul, para o Centro-Oeste; as pessoas estão indo para os polos de desenvolvimento que existem no próprio Nordeste, que absorvem muita mão de obra.

Por força da desertificação, chamamos essas pessoas que migram para as regiões do Nordeste de “refugiados ambientais”.

Qual o risco de esse processo de desertificação se espalhar para outros pontos do semiárido?

O risco é iminente. Por isso o governo, através do Ministério do Meio Ambiente, elaborou um Plano de Ação Nacional de Combate à Desertificação, com o apoio de diversos órgãos do governo e também da sociedade civil, entre eles o Ibama, a ANA e a Embrapa. Por força deste programa, foram instituídos os chamados Planos de Ações Estaduais – PAES. Na realidade, quem mais conhece sua situação de desertificação é o próprio estado e, às vezes, o próprio município, por isso é preciso ir até a ponta. Cada estado do Nordeste que padece desse problema elaborou seus programas e alguns já criaram leis. Então, a ideia é dotar esses estados e, por conseguinte, os municípios de algumas práticas e tecnologias que vão diminuindo e minimizando esse problema. A governança da desertificação passa, justamente, por esses programas que saem da esfera federal e chegam até o município, ensinando o que se deve e o que não se deve fazer para acelerar esse processo de desertificação.

No passado, o problema era muito maior. Após o advento destes programas, estamos minimizando a situação pouco a pouco. Já estamos conseguindo identificar esses processos de desertificação mais intensos e colocá-los na esfera municipal, que é onde acontecem as ações. Também estamos atualizando informações sobre a desertificação para que os estados possam priorizar os investimentos, pois não temos muitas pessoas trabalhando com essa questão e precisamos de mais pessoas para poder equacionar essa situação.

A forma de frearmos um pouco esse processo é com tecnologia e com informação, intensificando um processo de fiscalização, de sensibilização e também de penalização das pessoas que estão fazendo as coisas erradas, pois também existe um segmento empresarial muito forte no Nordeste, que vive deste produto da desertificação e do desmatamento, porque utilizam muita madeira, lenha e carvão em suas matrizes energéticas, e de forma insustentável. Então, esta é uma forma também de pressioná-los para que possam fazer a coisa certa e para que não degradem ainda mais o ambiente. Existe uma legislação pertinente para que possamos controlar este quadro, e com este controle iremos conter um pouco o avanço do processo de desertificação por todo o semiárido brasileiro.

Em que consiste o Plano Nacional de Combate à Desertificação? Por que ele não tem sido efetivo no semiárido?

O plano foi publicado em 2005. Essa alternância da governabilidade do plano impede que muitas ações sejam levadas a cabo, e creio que este é um fator muito importante. Em lugar de se fazer um plano de governo, deveria ser feito um plano de Estado, um plano que realmente pudesse incentivar, ter recursos financeiros e humanos destinados para isso, e que fosse um objeto realmente mais eficaz e eficiente, mas infelizmente isso não acontece.

Em geral esses planos fazem parte de uma política partidária que, às vezes, causa um pouco de angústia nas pessoas que trabalham com o assunto, porque vemos muita coisa sendo construída que não é efetivada do modo como gostaríamos. Nós, enquanto instituição, temos um limite de fazer a parte de pesquisa, de demonstrá-la, de divulgar as tecnologias disponíveis, mas temos uma limitação, só podemos chegar até uma esfera de execução de algumas atividades, porque a partir daí foge da nossa alçada como empresa de pesquisa.

Que fatores têm levado a caatinga a sofrer um processo de degradação e como esse processo contribui para a desertificação do semiárido?

O que mais contribui para que isso ocorra é exatamente a derrubada da caatinga. A energia no Brasil está muito cara, e no semiárido, em particular, há muitas empresas que utilizam a energia de biomassa. Ocorre que este tipo de energia é exatamente o produto da derrubada e do desmatamento da caatinga.

Hoje o Ibama, em nível federal, e os estados, com suas secretarias de meio ambiente e suas agências, estão tentando controlar para que esse processo de utilização da lenha e do carvão não seja realizado de forma não manejada, ou seja, retirado da natureza forma ilegal, clandestina. Como falei no início da nossa conversa, entre 2002 e 2008 foram desmatados aproximadamente 16 mil Km². Se multiplicarmos esse valor por 100, teremos o resultado dessa área por hectares. No intervalo de apenas seis anos foi destruído praticamente 20% de todo o estado de Pernambuco, por exemplo. Isso é muito sério e por isso precisamos frear esse desmatamento ou incentivar, coisa que já está sendo feita, a realização de planos de manejo florestal da caatinga. 

O que é um plano de manejo florestal sustentável da caatinga? São planos elaborados por equipes de engenheiros florestais, em que a vegetação da caatinga é utilizada de forma contínua e sustentável. Dependendo do lugar em que já foi desmatada, a caatinga pode levar de 30 a 40 anos para se regenerar. Assim, os estudos de manejo vieram para isso. 

Aqui na região do Araripe se produz 95% de todo o gesso do Brasil. Para transformar o minério em gesso, é preciso desidratá-lo — o termo usado é calcinar — e para isso se utiliza energia, sendo que a mais utilizada é a de biomassa, e mais de 50% dessa energia é oriunda de desmatamentos ilegais e clandestinos. O governo sabe disso, as autoridades sabem disso e estamos com um trabalho muito importante de conscientização dessas empresas que utilizam biomassa na sua matriz energética. 

Que medidas são necessárias para reverter esse processo de desertificação? 

O monitoramento que está sedo executado do desmatamento da caatinga é fundamental. Verificamos que a Amazônia, a Mata Atlântica e até o Cerrado têm muita visibilidade no cenário nacional e internacional, mas a caatinga tem menos visibilidade. Por isso, é necessário monitorar, ver onde estão ocorrendo os problemas e fazer ações mais efetivas. Acredito que assim conseguiremos mostrar, inclusive na mídia nacional, como está sendo feito esse controle. Queremos dar visibilidade para a caatinga e talvez seja um pouco mais difícil, porque enquanto na Amazônia e no Cerrado os desmatamentos são de grandes extensões, na caatinga o desmatamento é feito de forma muito particular. É o que chamo de desmatamento “formiguinha”, ou seja, não tem uma frente contínua de desmatamento que é vista em uma imagem de satélite com muita facilidade, como se vê na Amazônia e no Cerrado. Então, queremos monitorar esse desmatamento.

A América Latina diante do enigma chinês

Poder global crescente de Pequim pode livrar região da dependência secular diante de Washington. Mas falta projeto próprio, que não signifique mera troca de patrões.

No "Outras Palavras"
Via "Alai"
Por Alfredo Serrano Mancilla
Tradução Inês Castilho


Muito se escreveu no século XXI sobre o papel da República Popular da China no mundo. Contudo, as agências norte-americanas de classificação de risco não a enxergam, ao fazer avaliações para muitos países na América Latina. Na mesma linha estão organismos internacionais, com a liderança do Fundo Monetário Internacional, que encobrem as relações do gigante asiático com a região em assuntos comerciais, financeiros, tecnológicos, energéticos e de investimentos. Tanto uns como outros vêm proclamando que Argentina e Venezuela, por exemplo, padecem de um preocupante estrangulamento financeiro externo; ou que estão em plena insolvência, sem recursos para o pagamento de credores internacionais. Essa teoria se afirmaria se deixássemos fora do mapa mundi tudo o que a China representa, tanto no terreno geopolítico como geoeconomicamente. Pois não existe passe de mágica que possa fazer desaparecer os 1,3 bilhão de chineses que habitam o país mais povoado do planeta. Tampouco é possível passar por cima do fato de que hoje a China representa 16,5% da economia mundial (frente a 16,3% dos EUA); ou que o Banco do Povo da China possui quase quatro bilhões de dólares em reservas internacionais, e que o yuan se conterveu consequentemente na sétima divisa mais usada para pagamentos internacionais.

O yuan como contrapeso ao dólar

Apesar de tudo isso, a China só tem 3,81% dos votos na direção do FMI, muito longe do que ela realmente representa no contexto econômico mundial. O FMI não tem regras democráticas, nem que respondam à potência econômica, porque não permite que Pequim possa ampliar sua participação para alcançar ao menos o mesmo poder de veto que têm hoje os Estados Unidos (que participam com 16,74%). Em resposta, a China acaba de abrir uma nova instituição financeira, o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (BAII), ao qual já aderiram uns 57 países (além dos BRICS, Alemanha, Reino Unido, França, Itália, Holanda, Austrália, Espanha, Coreia do Sul, Israel). O Consenso de Pequim, como certos autores o chamam, é uma realidade a favor de uma nova diplomacia financeira.

A China continua aumentando seus investimentos diretos no exterior: em média, 200 bilhões de dólares anuais; embora menos que os Estados Unidos, que investem 367 bilhões anualmente, mas cada vez mais em seus calcanhares. Pequim situou-se no centro de uma gravitação econômica mundial alternativa, o que obriga os Estados Unidos a abandonarem, pouco a pouco, sua hegemonia unipolar. Este novo polo foi capaz, além disso, de estabelecer fortes laços com o resto dos blocos geoeconômicos, com relações muito fortes entre si, não unicamente comerciais, mas que abarcam outras dimensões, também políticas.

China, a nova aliada

Embora sob o protesto dos poderes econômicos tradicionais, a China é um parceiro estratégico real e muito pró-ativo para a América Latina, na nova era global. Desde o início do século XXI, ela conseguiu multiplicar por vinte o volume de seu comércio bilateral com os países que formam a Celac (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos). Na cúpula do bloco, no início de 2015, comprometeu-se a investir na América Latina nos próximos dez anos um total de 250 bilhões de dólares — uma média de 25 bilhões anuais, muito acima dos 10 bilhões que mantinha em média nos anos anteriores a 2010.

Esses números não se referem a comércio intra-regional nem a financiamento tradicional, mas a investimentos em setores chaves (infraestrutura, indústria, tecnologia, energia, comunicação). Neste âmbito, o potencial é muito grande, porque atualmente só 4,1% dos investimentos diretos das empresas chinesas no exterior dirigem-se à América Latina. O valor comprometido para a próxima década é um salto quantitativo e qualitativo. Some-se a isso que o próprio presidente chinês, Xi Jinping, incentivou um esforço para duplicar o volume de comércio bilateral para até 500 bilhões de dólares, ao longo dos próximos dez anos. 

São números nada desprezíveis, num momento de transição geoeconômica em que se disputa o sentido da nova ordem econômica mundial. A América Latina mantém com o gigante da Ásia uma relação privilegiada, que não deve converter-se em efeito bumerangue. No atual processo de mudança de época, a China é um aliado capaz de facilitar a nova reinserção econômica soberana e estratégica no sistema econômico — sempre e quando isso não signifique ser um aliado-possessivo. Quer dizer, a América Latina precisa da China como parceiro, não como patrão. 

Eis aqui a grande pergunta do milhão. Nestes anos, a China pode ser uma alternativa real para que a América Latina sustente o ritmo de crescimento necessário para colocar em prática políticas públicas a favor das maiorias. Muitos críticos de uma suposta neodependência em relação a Pequim ignoram que não há opção efetiva de curto prazo, para manter crescimento redistributivo, se em aliança com quem lidera a nova era econômica. É ingênuo acreditar que, partindo de onde estava, com economias golpeadas e endividamento social e financeiro, seria pensar em transformações estruturais sem superar as tensões próprias de uma conjuntura adversa. 

Cada vez é mais comum, entre o pensamento não-convencional, pensar em longo prazo, evitando limitar-se ao curto prazo para resolver aquilo que afeta negativamente a maioria dos cidadãos. O assunto China precisa ser analisado e problematizado a partir dessa perspectiva econômica, social e política complexa e real, desde essa dialética entre o que é tático e o que é estratégico, entre as respostas de natureza circunstancial e as mudanças estruturais. É irresponsável criticar os novos laços entre a América Latina à China sem avaliar quais os verdadeiros desafios estratégicos do novo cenário econômico, naquilo que constitui a vida cotidiana das maiorias. 

O Consenso Bolivariano da América Latina 

Mas isso não pode e não deve significar que o futuro, que está em disputa e vai ser decidido nos próximos anos, continue no mesmo caminho do passado recente. Surgirão múltiplos desafios econômicos para estabelecer uma relação virtuosa. A América Latina precisa sair de vez do Consenso de Washington, sem cair nas redes de um possível Consenso de Pequim. Ainda que a nova diplomacia financeira chinesa seja menos invasiva do que foi a diplomacia financeira made em USA, o objetivo para a América Latina é constituir-se sob seu próprio consenso, no qual instituições como a Celac ou Unasul tenham firmeza e capacidade real para reinserir-se no mundo de forma emancipada. 

A inserção do BRICS no mundo precisa passar, necessariamente, pela inserção latino-americana no mundo. Um Banco do Sul precisa ser a instância adequada para que a América Latina dialogue com o Banco de Desenvolvimento dos Brics ou com o BAII. Por exemplo, uma agência de qualificação de risco, como instituição pública e latino-americana, deveria ser a encarregada de avaliar a dívida pública em cada país da região, a partir de convênios com as novas agências econômicas chinesa ou russa — mas sem submeter-se a elas, como a região tem feito até agora com Fitch, Moodys ou Standard & Poors. 

O sistema de arbitragem que se está sendo criado na Unasul deve ser a forma adequada para que a região se relacione com os investimento estrangeiros diretos que venham da China. Deve também ser discutida a distribuição do valor agregado gerado a partir das novas relações de integração produtiva entre China e América Latina. As condições de transferência de tecnologia e propriedade intelectual são outros elementos cruciais para repensar que tipo de relações com a China são as mais úteis para que a América Latina continue caminhando numa trilha de mudança a favor das maiorias sociais. 

Diz um provérbio chinês, justamente, que “o fogo é fundamental para cozinhar, mas pode também acabar queimando a cozinha”. Neste caso, a América Latina necessita da China (e vice-versa, ainda que não na mesma proporção); mas a virtude reside em que essa necessidade não venha a se constituir numa limitação infinita para obter a segunda e definitiva independência da região. Na atual disputa geoeconômica mundial, não existem ilhas Robinson Crusoe nas quais se possa esconder ou asilar; o ponto de bifurcação está colocado entre a subordinação aos EUA e a inserção nos BRICS. A primeira via já tem o seu próprio currículo; a segunda ainda tem perguntas a ser feitas. Sua condição necessária não elimina os riscos que pode causar quanto a uma possível desaceleração ou impedimento de inserção regional soberana no mundo. Trata-se de avaliar as consequências desta nova paisagem geopolítica em favor da América Latina. 

A chave será construir uma relação capaz de aproveitar o vento a favor, evitando que ele acabe fagocitando o processo de mudança regional que vinha se produzindo. Abre-se um cenário geopolítico novo e melhor, que exige, por sua vez, rediscutir e atualizar taticamente uma nova política econômica interna e externa, para não perder jamais o horizonte estratégico traçado a partir do Sul. Isso evitará os riscos de cair nas redes sedutoras de qualquer Outro Norte, se este vier a se produzir. 

Mais do que nunca, é o momento para a América Latina latinoamericanizar integralmente a necessária relação com a China — mas de igual para igual, sem sentimento de inferioridade, com soberania e sem neodependência. Embora necessária, que seja apenas como condição temporária para alcançar a irreversibilidade deste processo de mudança, em sintonia com a continuidade do avanço em tudo o que falta conquistar.

Amazônia apodrece em lagos de novas hidrelétricas

Usina de Teles Pires descumpriu plano ambiental e alagou o reservatório com árvores dentro. Decomposição deve emitir grande quantidade de metano, gás do efeito estufa.

No "Repórter Brasil"
Por Piero Locatelli

A hidrelétrica de Teles Pires deve começar a gerar energia com árvores apodrecendo dentro do seu reservatório, construído na divisa entre o Mato Grosso e o Pará, na floresta Amazônica. Boiando sobre o lago criado pela usina, o entulho pode ser visto de longe. São galhos, lenhas e toras de madeira, entre elas castanheiras e árvores de mogno. O apodrecimento dessa vegetação deve levar à morte de peixes e ao aumento da emissão do gás metano, pelo menos vinte vezes mais nocivo ao efeito estufa do que o gás carbônico. Impacto desastroso para um empreendimento que se apresenta como “fonte [de energia] limpa, renovável e ambientalmente correta.”

Madeira desmatada antes do alagamento não foi removida corretamente e ficou dentro do lago da usina. Floresta em pé também foi alagada Foto: Ibama
As fotos publicadas nesta reportagem revelam que a usina não cumpriu uma regra obrigatória para o seu funcionamento: a retirada das árvores da área a ser alagada conforme previsto no seu Plano de Desmatamento. Além da geração de metano, outra consequência é o desperdício de madeira. Oito pátios com toras foram alagados pelo reservatório da usina, e a madeira que deveria ter sido vendida ou utilizada na obra acabou apodrecendo no rio. A companhia também manteve árvores onde deveria ter desmatado totalmente, como as margens do rio Paranaíta. Além disso, a usina não retirou a vegetação necessária nas ilhas e na beira do rio Teles Pires.

O responsável direto pela barbeiragem ambiental é a Companhia Hidrelétrica Teles Pires, consórcio formado pelas empresas Neoenergia (50,1%), Eletrobras Furnas (24,5%), Eletrobras Eletrosul (24,5%) e Odebrecht (0,9%). A usina faz parte do Programa de Aceleração do Crescimento, do governo federal. Como órgão fiscalizador, o Ibama deveria ter detectado o problema, mas os técnicos chegaram tarde.

O Ibama só constatou que o plano não tinha sido cumprido em fevereiro de 2015, quase três meses após autorizar o funcionamento da hidrelétrica em novembro de 2014. Segundo relatório assinado por técnicos do órgão, “as atividades de limpeza da bacia de acumulação foram realizadas de forma pouco criteriosa e até mesmo negligente.”

Antes da fiscalização do Ibama, os erros da usina já haviam sido diagnosticados pelo Instituto Centro de Vida, organização que monitora os impactos de Teles Pires. O instituto revelou que a usina não havia retirado nem metade da vegetação do local em outubro do ano passado, há menos de um mês dela receber a autorização para encher o reservatório. Desta forma, 6,2 mil hectares devem ter sido alagados com vegetação – mais de mil hectares acima do que deveria ter sido retirado pela empresa, segundo o seu Plano de Desmatamento. (Clique aqui para baixar o mapa elaborado pelo ICV).

Floresta dentro do lago de Teles Pires


Questionada pela Repórter Brasil, a assessoria de imprensa da Companhia Hidrelétrica Teles Pires respondeu que está tomando as “providências adicionais necessárias ou requisitadas pelos órgãos ambientais, incluindo a limpeza do reservatório.” (Leia a íntegra das respostas da usina). Questionado sobre a demora na fiscalização, o Ibama afirmou que elas foram feitas dentro do tempo “usual”. (Leia a íntegra da reposta do Ibama)

Madeira jogada fora

Os erros cometidos pelo consórcio não afetarão só a vida no rio e o aquecimento global, mas também a floresta Amazônica e a economia da região. Isso porque a madeira que boia sobre o lago deveria ter sido explorada por serrarias certificadas e vendida legalmente, diminuindo a demanda pela derrubada de mais árvores. Com o desperdício, a madeira necessária na região, inclusive nas obras da usina, terá que sair de outro lugar.

Região de expansão da soja, o norte do Mato Grosso está entre os locais com mais desmatamento no país. O município onde fica a maior parte do lago, Paranaíta (MT), está na chamada “lista negra” do Ministério do Meio Ambiente, o ranking das cidades que mais desmatam. Por isso, a população da cidade sofre restrições de acesso a algumas políticas públicas, como o crédito a produtores rurais.

Em e-mail à reportagem, o consórcio de Teles Pires alega ainda que “realocou e removeu” as toras de valor comercial que estavam nos pátios alagados. Questionada, a empresa não respondeu as perguntas sobre como esta madeira foi comercializada.

Projeto tinha problemas

Mesmo que seguido à risca, o Plano de Desmatamento da usina não teria sido suficiente para conter os impactos ao meio ambiente. Este plano , que é elaborado pelo consórcio e aprovado pelo Ibama, estabeleceu que apenas 58% da vegetação deveria ser retirada dos 10,7 mil hectares alagados. Segundo especialistas ouvidos pela Repórter Brasil, o percentual contrasta com o plano de outras hidrelétricas licenciadas recentemente que fixam como meta a retirada total da vegetação.

“Não há rigor científico nos 58%. O Ibama discutiu diferentes cenários com o empreendedor, e chegaram ao que era mais econômico para a empresa,” diz Brent Millikan, diretor do programa para a Amazônia da International Rivers, ONG que acompanha o impacto de hidrelétricas em todo mundo. “Não há um processo aberto de debate com a comunidade científica, é um processo entre o Ibama e a empresa. E o Ibama não está imune a pressões políticas.”

Não foram só os cientistas que não foram ouvidos sobre os detalhes do plano ambiental da hidrelétrica, mas também a população local afetada pela obra. “A discussão chegou ao local na hora em que já estava pronto, ninguém sabia de nada [sobre como seria o desmatamento],” diz João Andrade, coordenador do Programa Governança Florestal do Instituto Centro de Vida.

Usina de metano

A principal consequência da série de erros cometidos pela usina será o aumento da emissão de metano. O gás é gerado quando uma substância orgânica se decompõe sem oxigênio, como no fundo do reservatório da hidrelétrica. Desta forma, as folhas, galhos e árvores deixados na área alagada vão se decompor e emitirão o gás metano em abundância.

Este fenômeno é estudado de perto no Brasil pelo biólogo Philip Fearnside, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Ele chama as hidrelétricas em países tropicais de “fábricas de metano”, já que emitem o gás de forma constante ao longo dos anos. O problema é comum a todas as hidrelétricas no Brasil, mas foi agravado em Teles Pires devido à grande quantidade de árvores e entulhos deixados no reservatório.

Fearnside chama a atenção para outra fonte de metano em Teles Pires: o mato que cresce em locais abandonados, conhecido como juquira. Como a maior parte da vegetação do reservatório foi retirada seis meses antes do seu enchimento, a juquira cresceu nos locais de onde saíram as árvores. Inundada, a vegetação baixa se transformará toda em metano.

O mesmo problema vai se repetir devido ao ciclo natural de seca e cheia dos rios. A vegetação das margens do reservatório não está adaptada a ficar abaixo da água em parte do ano. Assim, ela vai apodrecer e gerar o gás tóxico anualmente. “Toda vez que rebaixar o nível da água, vai se expor um lamaçal em volta do lago. Ali crescem ervas e gramíneas, e tudo aquilo morre quando a água vem. A vegetação fica no fundo, onde não tem oxigênio, e isso vira metano,” explica Fearnside. A hidrelétrica não respondeu à reportagem sobre a emissão do gás tóxico.

Histórico repetido

Teles Pires não será a primeira hidrelétrica a virar uma “fábrica de metano”. O mesmo problema foi flagrado na construção da usina de Santo Antônio, em Rondônia. As imagens abaixo foram registradas em fevereiro de 2012, quando o reservatório começava a ser alagado.

Em 2012, a usina de Santo Antônio cometeu o mesmo erro: a vegetação do rio Madeira não foi retirada da área alagada
“Todo mundo sabia que isso estava acontecendo, bastava andar de barco pelos lagos. O problema é que o Ibama não fiscaliza”, diz Artur Moret, físico da Universidade Federal de Rondônia. “A empresa só retira a madeira que tem valor de mercado. Se não tem valor, eles deixam lá mesmo”. Segundo Moret, esse é um problema geral na construção de hidrelétricas no Brasil. 

Construída há 25 anos, a usina de Balbina é o maior exemplo do problema. Ao norte de Manaus, foi alagada com a maior parte das árvores em pé dentro do lago. Quinze anos após ser construída, em 2005, a usina emitia dez vezes mais metano do que geraria uma termoelétrica movida a carvão com o mesmo potencial energético, segundo estudo do Inpa. O desastre de Balbina não deve acontecer na mesma escala por que a área do reservatório de Teles Pires é menor e suas turbinas são mais eficientes, e desta forma a água fica menos retida no local. 

A nova usina, porém, já gera problemas ambientais antes mesmo de suas cinco turbinas funcionarem. A geração de energia está atrasada em mais de seis meses por que a linha de transmissão que vai liga-la ao Sistema Interligado Nacional ainda não está pronta. O Ministério de Minas e Energia e a usina não souberam informar quando o problema estará solucionado. Hoje, Teles Pires é uma hidrelétrica que não gera energia, apenas gás metano.

Lavrov: desenvolvimento das relações com a China é uma das prioridades da Rússia

O desenvolvimento das relações com a China é uma das prioridades da Rússia, afirmou o ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.

No "Sputnik News"
Da Redação


“O desenvolvimento das relações russo-chinesas é uma das prioridades da Rússia e, espero, atende aos interesses da paz e da estabilidade”, disse o chanceler durante encontro com ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, realizado no âmbito do fórum da Associação de Nações do Sudeste Asiático (ASEAN), que acontece na Malásia.

Lavrov recordou da visita do presidente chinês, Xi Jinping, à Rússia, em maio deste ano, e da eminente visita do presidente russo, Vladimir Putin, à China. 

“Em julho, os nossos líderes se reuniram ao participar das cúpulas da Organização para Cooperação de Xangai e dos BRICS em Ufá. Em exatamente um mês, o presidente da Rússia, a convite do presidente da República Popular da China, participará de eventos em homenagem aos 70 anos da vitória da resistência chinesa ao militarismo japonês. Espero poder discutir hoje os preparativos para essa importante visita”, disse Sergei Lavrov. 

Wang Yi, por outro lado, afirmou que, no mês passado, “Rússia, na qualidade de anfitriã, realizou com muito sucesso as cúpulas da Organização para Cooperação de Xangai e dos BRICS”.

“Tudo isso demonstrou mais uma vez a altíssima capacidade da parte russa para organização de grandes eventos internacionais e toda a influência internacional do seu país”, disse o ministro chinês. 

“Este ano estão sendo comemorados os 70 anos da vitória na Segunda Guerra Mundial. Os povos da Rússia e da China, além de amargar grandes perdas, desempenharam o papel principal nessa vitória”, concluiu Wang Yi. 

Na Malásia, nos dias 5 e 6 de agosto, estão sendo realizados eventos anuais da ASEAN, inclusive as consultas interministeriais Rússia-ASEAN.